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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Ciranda de loucos: o ritmo circular e trágico do delirio]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,Universidade Federal de Minas Gerais  ]]></institution>
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<abstract abstract-type="short" xml:lang="en"><p><![CDATA[A powerful image of madness -a wide and complex theme in social life and in literature- is presented in Heracles' Euripides through the main character of the tragedy, the hero who is seized by rage and invests against his own family. With the support of other texts -namely the novel Quincas Borba, from Machado de Assis, and the short-tale "Sorôco, sua mãe, sua filha", from João Guimarães Rosa-, we intend to investigate how the poet make a madness' rhythm from the choice and use of the words. Not to mention authors that actually were or went mad, how to inoculate disorder in the word artificially -and therefore rationally- constructed?]]></p></abstract>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">    <b><font size="4">ART&Iacute;CULO ORIGINAL    <br>   </font></b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b><font size="4">Ciranda    de loucos: o ritmo circular e tr&aacute;gico do delirio</font>    <br>   </b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b><font size="3">Circle    Dancing with Madmen: the Delirium's Circular Tragic Rhythm</font>    <br>   </b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Tereza Virg&iacute;nia    Ribeiro Barbosa</b>    <br>   </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Universidade Federal    de Minas Gerais, Belo Horizonte, Brasil.    <br>   </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p> <hr>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>RESUMO</b>    <br>   </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Uma poderosa imagem    da loucura atravessa os tempos, tema vasto e complexo que invade a vida social    e a literatura. Apresentaremos a trag&eacute;dia H&eacute;racles de Eur&iacute;pides    focalizando seu protagonista, o her&oacute;i que &eacute; tomado de furor e    investe contra a pr&oacute;pria fam&iacute;lia. Com o apoio de outros textos    -o romance Quincas Borba, de Machado de Assis, e o conto &quot;Sor&ocirc;co,    sua m&atilde;e, sua filha&quot;, de Jo&atilde;o Guimar&atilde;es Rosa-, pretendemos    investigar como se d&aacute; a escolha e o uso de palavras para a constitui&ccedil;&atilde;o    do ritmo da loucura. Sem mencionar autores que verdadeiramente eram ou ficaram    loucos, como inocular desordem na palavra artificialmente -e portanto racionalmente-    constru&iacute;da? A nossa trajet&oacute;ria pretende demonstrar que a t&eacute;cnica    da literatura para construir a dem&ecirc;ncia nos tr&ecirc;s textos escolhidos    tem suas bases na literatura grega.     ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   </font></p>     <p><b><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">PALAVRAS-CHAVE:</font></b><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">    literatura brasileira, loucura, m&iacute;mesis, trag&eacute;dia grega.    <br>   </font></p> <hr>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>ABSTRACT</b>    <br>   </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A powerful image    of madness -a wide and complex theme in social life and in literature- is presented    in Heracles' Euripides through the main character of the tragedy, the hero who    is seized by rage and invests against his own family. With the support of other    texts -namely the novel Quincas Borba, from Machado de Assis, and the short-tale    &quot;Sor&ocirc;co, sua m&atilde;e, sua filha&quot;, from Jo&atilde;o Guimar&atilde;es    Rosa-, we intend to investigate how the poet make a madness' rhythm from the    choice and use of the words. Not to mention authors that actually were or went    mad, how to inoculate disorder in the word artificially -and therefore rationally-    constructed?    <br>   </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>KEYWORDS:</b>    literature brasileira, madness, mimesis, Greek tragedy.    <br>   </font></p> <hr>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Desde sempre tr&aacute;gicos    de todos os tempos -de &Eacute;squilo a Nelson Rodrigues- se sobressa&iacute;ram    na representa&ccedil;&atilde;o das paix&otilde;es desmedidas e dos excessos.    Artistas representaram as mais violentas emo&ccedil;&otilde;es de v&aacute;rios    modos, mas foram os gregos, na cultura ocidental, que iniciaram o processo de    an&aacute;lise dos ???? no teatro. Os man&iacute;acos, para os hel&ecirc;nicos,    eram os acometidos pela ???, perturba&ccedil;&atilde;o do esp&iacute;rito. Seus    atos provocavam espanto e, se a dem&ecirc;ncia os levasse a crimes contra familiares,    sofriam a pena terr&iacute;vel das Er&iacute;nias. As trag&eacute;dias &aacute;ticas,    inseridas no ritual do ct&ocirc;nico Dioniso, s&atilde;o disso fonte inesgot&aacute;vel:    mostram for&ccedil;as que irrompem das profundezas e exp&otilde;em o drama humano    para expurg&aacute;-lo pela k&aacute;tharsis.    <br>   </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Mas a fraqueza    dos homens nem sempre foi tratada de forma coletiva e interativa, a c&eacute;u    aberto e em grandes espet&aacute;culos. Os que se contradizem loucamente, os    paradoxais, foram paulatinamente banidos de nosso meio e nunca foram assumidos    como normalidade na exist&ecirc;ncia. Nossas fraquezas s&atilde;o, frequentemente,    enclausuradas (Davis, 2012). Determinou-se, para os que dizem e fazem absurdos,    a corre&ccedil;&atilde;o e as grades (Foucault, 1978). E t&atilde;o comuns foram    os aprisionamentos que, ainda hoje, no Brasil interior, em Minas Gerais, um    modo de falar denuncia essa pr&aacute;tica pret&eacute;rita. Para nomear os    imponder&aacute;veis da vida se diz: &quot;&eacute; um trem de louco!&quot;.    O dito, provavelmente do in&iacute;cio do s&eacute;culo XX, parece ligar-se    ao Hospital Col&ocirc;nia, de Barbacena, hoje sede do Museu da Loucura. A hist&oacute;ria    pode nos dar pistas (Pereira, 2009),(<a href="#1">1</a><a name="11"></a>) mas    n&atilde;o se sabe ao certo quem inventou a t&atilde;o estigmatizada frase.    O cr&iacute;tico F&aacute;bio Lucas (2009) encontra na literatura uma resposta    e toma Jo&atilde;o Guimar&atilde;es Rosa como testemunha: &quot;Barbacena, conforme    se sabe, tornara-se sede de um manic&ocirc;mio cujos clientes, captados em todas    as regi&otilde;es do Estado, comumente eram transportados em vag&otilde;es especiais    de trens de ferro. Essa mem&oacute;ria ter&aacute; talvez dado alento ao conto    &quot;Sor&ocirc;co, sua m&atilde;e, sua filha&quot;, constante na colet&acirc;nea    Primeiras hist&oacute;rias&quot; (p. 90).    <br>   </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O &quot;trem de    louco&quot; &eacute; um similar mineiro da Stultifera navis, a Narrenschiff,    a &quot;Nau dos loucos&quot; comentada largamente por Foucault (1978, p. 30).    Ali&aacute;s, a associa&ccedil;&atilde;o trem e navio -&eacute; modo delicado-    indica-a, deveras, Guimar&atilde;es Rosa no conto mencionado, como apontou Lucas.    Destaco um fragmento da narrativa para que possamos vislumbrar o trem que chega    na esta&ccedil;&atilde;o:     <br>   </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A hora era de muito    sol -o povo ca&ccedil;ava jeito de ficarem debaixo da sombra das &aacute;rvores    de cedro-. O carro lembrava um cano&atilde;o no seco, navio. A gente olhava:    nas reluz&ecirc;ncias do ar, parecia que ele estava torto, que nas pontas se    empinava. O borco bojudo do telhadilho dele alumiava em preto. Parecia coisa    de invento de muita dist&acirc;ncia, sem piedade nenhuma, e que a gente n&atilde;o    pudesse imaginar direito nem se acostumar de ver, e n&atilde;o sendo de ningu&eacute;m.    Para onde ia, no levar as mulheres, era para um lugar chamado Barbacena, longe.    (Guimar&atilde;es Rosa, 1988, p. 18; grifo nosso)    <br>   </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">No dialeto mineiro    que grifamos, os vag&otilde;es do trem lembravam uma ins&oacute;lita barca&ccedil;a    que empinava as pontas, como um navio, ao movimentar-se. Instaura-se um paradoxo:    um barco que em terra navega; o trem vem como uma alucina&ccedil;&atilde;o.    A imagem constru&iacute;da provoca nos leitores uma percep&ccedil;&atilde;o    extraordin&aacute;ria. Simbolicamente, h&aacute; recorr&ecirc;ncia de um signo:    o c&iacute;rculo (Ostetto, 2009). A circularidade -s&iacute;mbolo de perfei&ccedil;&atilde;o    ou de isolamento em um grupo fechado?- tem in&iacute;cio com a imagem do sol;    segue-se o trem em formato curvil&iacute;neo de &quot;cano&atilde;o&quot; com    sua cobertura, &quot;um telhadilho&quot; todo negro -uma outra barca&ccedil;a    emborcada-(<a name="22"></a><a href="#2">2</a>) a refletir a luz solar, um outro    paradoxo nada desprez&iacute;vel.     ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A filha -a mo&ccedil;a-    tinha pegado a cantar, levantando os bra&ccedil;os, a cantiga n&atilde;o vigorava    certa, nem tom nem no se-dizer das palavras -o nenhum-. A mo&ccedil;a punha    os olhos no alto, que nem os santos e os espantados, vinha enfeitada de disparates,    num aspecto de admira&ccedil;&atilde;o. Assim com panos e pap&eacute;is, de    diversas cores, uma carapu&ccedil;a em cima dos espalhados cabelos, e enfunada    em tantas roupas ainda de mais misturas, tiras e faixas, dependuradas -virundangas:    mat&eacute;ria de maluco-. A velha s&oacute; estava de preto, com um fichu preto,    ela batia com a cabe&ccedil;a, nos docementes (Guimar&atilde;es Rosa, 1988,    p. 19).     <br>   </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Sor&ocirc;co com    sua m&atilde;e e sua filha surgem no meio da rua nesse instante de ilumina&ccedil;&atilde;o    intensa, quando todos se abrigavam &agrave; sombra do cedro, &aacute;rvore de    nome grego, ?????? e madeira usada para constru&ccedil;&atilde;o de navios.    A imprecis&atilde;o do instante &eacute; bem registrada pelo l&eacute;xico:    &quot;lembrava&quot;, &quot;reluz&ecirc;ncias&quot;, &quot;parecia que ele estava    torto&quot;, &quot;longe&quot;, &quot;muita dist&acirc;ncia&quot;, &quot;imaginar&quot;,    &quot;de ningu&eacute;m&quot;, &quot;longe&quot;. O autor focaliza a filha de    Sor&ocirc;co &quot;enfeitada de disparates&quot;, em outros termos, &quot;enfeitada    de deris&atilde;o&quot;; ela pr&oacute;pria, a filha de Sor&ocirc;co, &quot;enfunada&quot;    ou &quot;cheia como uma vela de navio ao vento&quot; deixando de sua boca sair    um canto. Sob a circularidade astral e a inexatid&atilde;o assoma-se a sua a    cantoria, outro &iacute;ndice de loucura com o qual o conto termina. A partir    da melodia entoada nota-se o desvio no uso das palavras e no tom inseguro e    desafinado da que canta. Os bra&ccedil;os para o alto desenham gestos exagerados.    Os olhos miram o c&eacute;u como os santos e alumbrados. A filha tem enfeites    coloridos que contrastam com a m&atilde;e toda de preto. A variedade de a&ccedil;&otilde;es    da filha se op&otilde;e ao proceder repetitivo da m&atilde;e, que &quot;batia    com a cabe&ccedil;a nos docementes&quot;. Vale observar o estranhamento provocado    pelo escritor o qual flexiona o adv&eacute;rbio &quot;docemente&quot; e provoca    um desvio de leitura. A forma&ccedil;&atilde;o lexical do adv&eacute;rbio &quot;docemente&quot;    com a flex&atilde;o do plural, al&eacute;m de manter o sentido b&aacute;sico    de suavidade, pode remeter a uma palavra composta por duas outras: 'doce', isto    &eacute;, &quot;de sabor a&ccedil;ucarado ou de modo macio&quot;, e 'mente',    pensamento, intelecto. Assim, a m&atilde;e de Sor&ocirc;co tinha a &quot;mente    macia&quot;, tradu&ccedil;&atilde;o da express&atilde;o idiom&aacute;tica &quot;miolo    mole&quot;. Pelas duas cita&ccedil;&otilde;es constata-se a jun&ccedil;&atilde;o    de opostos: a filha, aquela que &eacute; livre de entraves e regras, contrasta    com a m&atilde;e, a louca confinada em mov&ecirc;ncias fixas e repetidas; a    luz excessiva que contrasta com os tons do telhadilho a refletir o clar&atilde;o    solar e com a veste da m&atilde;e de Sor&ocirc;co, que, por sua vez, contrasta    com o colorido da roupagem da filha. Tomemos aqui por seguro que, no excerto,    as palavras delimitam a dem&ecirc;ncia como uma esp&eacute;cie de confronto    coletivo. A distin&ccedil;&atilde;o de uns e outros s&oacute; se faz nos detalhes:    &quot;A gente reparando, notava as diferen&ccedil;as&quot; (Guimar&atilde;es    Rosa, 1988, p. 19). Vamos regidos pelo vaiv&eacute;m do trem, sem ordenamento    -&quot;foi sem combina&ccedil;&atilde;o&quot;-, em impalp&aacute;vel ritmo,    um &quot;trem de loucos&quot;, que forma um cortejo de dementes (Reis, 2004).    O conto termina expandido; sem o sol -&quot;a gente se esfriou&quot;-, todos    caminham para o ilimitado; como num transpasse todos enlouquecem:    <br>   </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A gente se esfriou,    se afundou -um instant&acirc;neo. A gente [...] E foi sem combina&ccedil;&atilde;o,    nem ningu&eacute;m entendia o que se fizesse: todos, de uma vez, de d&oacute;    do Sor&ocirc;co, principiaram tamb&eacute;m a acompanhar aquele canto sem raz&atilde;o.    E com as vozes t&atilde;o altas! Todos caminhando, com ele, Sor&ocirc;co, e    canta que cantando, atr&aacute;s dele, os mais de detr&aacute;s quase que corriam,    ningu&eacute;m deixasse de cantar. Foi o de n&atilde;o sair mais da mem&oacute;ria.    Foi um caso sem compara&ccedil;&atilde;o.    <br>   </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A gente estava    levando agora o Sor&ocirc;co para a casa dele, de verdade. A gente, com ele,    ia at&eacute; aonde que ia aquela cantiga. (Guimar&atilde;es Rosa, 1988, p.    21)    <br>   </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Eis uma ciranda    de loucos. Da &aacute;gua, do sol e da secura da via f&eacute;rrea n&atilde;o    se escapa.     ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">S&atilde;o frequentes    -e n&atilde;o apenas em Rosa- as vezes em que a loucura extrapola as paredes    dos hosp&iacute;cios e ganha visibilidade na literatura. No Brasil, em r&aacute;pida    conta, poder&iacute;amos citar refer&ecirc;ncias como Lima Barreto, Machado    de Assis, An&iacute;bal Machado, Graciliano Ramos e Campos de Carvalho. Destes,    servimo-nos de Rosa como introdu&ccedil;&atilde;o, passamos por Machado e encerramos    com um grego, Eur&iacute;pides. Observamos como a escolha das palavras na narrativa    marca um ritmo(<a name="33"></a><a href="#3">3</a>) circular e inexato que constr&oacute;i    um estado peculiar de dem&ecirc;ncia. N&atilde;o se trata de uma abordagem inovadora.    Elo&eacute;sio dos Reis, que segue hip&oacute;teses de Soshana Felman, mostra    que h&aacute; &quot;uma afinidade profunda entre o discurso liter&aacute;rio    e o da loucura&quot; (Reis, 2004, p. 17). Loucura e literatura se irmanariam    pelo &quot;fato de n&atilde;o serem portadoras de um sentido, mas de um &quot;ritmo&quot;    imprevis&iacute;vel, imensur&aacute;vel e indiz&iacute;vel, ainda que fundamentalmente    pass&iacute;vel de narra&ccedil;&atilde;o&quot; (Reis, 2004, p. 22).    <br>   </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Com esse princ&iacute;pio    buscaremos o ritmo de constitui&ccedil;&atilde;o de um louco nos autores mencionados,    para demonstrar que existe uma t&eacute;cnica de base grega para construir,    no discurso, a desraz&atilde;o, nomeadamente, o uso de uma circularidade -ciranda-,    do ritmo bem marcado, da enumera&ccedil;&atilde;o de a&ccedil;&otilde;es e afec&ccedil;&otilde;es    que v&atilde;o e voltam em vertigem. Este &eacute; o nosso prop&oacute;sito:    apresentar mecanismos po&eacute;ticos presentes tanto em textos brasileiros    quanto no texto grego escolhido para materializar o estado da aventura mental    e da transmuta&ccedil;&atilde;o dos sentidos que chamaremos &quot;loucura&quot;.    Detectemos, ent&atilde;o, agentes textuais po&eacute;ticos que mimetizam os    sandeus e marcam os desvios. A t&eacute;cnica mant&eacute;m solidariedade e    espa&ccedil;o comum com a realidade, distinguindo por altera&ccedil;&otilde;es    sutis s&atilde;os e insanos. S&atilde;o movimentos ritmados e repetitivos desde    a Gr&eacute;cia.    <br>   </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O ensa&iacute;sta    F&aacute;bio Lucas narrou em detalhes a visita de Machado de Assis a Barbacena,    sede do malfadado Hospital Col&ocirc;nia e terra de nascimento de Pedro Rubi&atilde;o,    protagonista do romance Quincas Borba. Segundo o ensa&iacute;sta, o escritor    foi at&eacute; a cidade movido &quot;pelo estudo das condi&ccedil;&otilde;es    extremas da alma humana&quot; (Lucas, 2009, p. 85). Mas, de Machado, interessa-nos    apenas um passo. O final do livro, quando o m&eacute;dico de Rubi&atilde;o e    Cristiano Palha divergem a respeito do estado mental do homem. Palha diz-se    amigo e s&oacute;cio de Rubi&atilde;o. Depois da primeira crise de dem&ecirc;ncia    torna-se seu tutor, contudo, no per&iacute;odo manicomial, afirma n&atilde;o    poder detectar a loucura do parceiro somente pelo discurso. A situa&ccedil;&atilde;o    &eacute; narrada em par&aacute;grafos4 curtos e ritmo circular e imprevis&iacute;vel:    <br>   </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Como achar, por&eacute;m,    o nosso Rubi&atilde;o nem o cachorro, se ambos haviam partido para Barbacena?    Oito dias antes, Rubi&atilde;o escrevera ao Palha que o procurasse; este acudiu    &agrave; casa de sa&uacute;de, viu que ele raciocinava claramente, sem a menor    sombra de del&iacute;rio.    <br>   </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">-Tive uma crise    mental, disse-lhe Rubi&atilde;o; agora estou bom, perfeitamente bom. Pe&ccedil;o-lhe    que me ponha fora daqui. Creio que o diretor n&atilde;o se opor&aacute;. Entretanto,    como quero deixar algumas lembran&ccedil;as &agrave; gente que me tem servido,    e servido tamb&eacute;m ao Quincas Borba, veja se me pode adiantar cem mil-r&eacute;is.    </font> </p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Palha abriu a carteira    sem hesita&ccedil;&atilde;o, e deu-lhe o dinheiro.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">-Vou tratar de    o fazer sair, disse ele; mas, provavelmente s&atilde;o precisos alguns dias    (estava em v&eacute;speras do baile); n&atilde;o se aflija por isso; daqui a    uma semana est&aacute; na rua.    <br>   </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Antes de sair,    consultou o diretor, que lhe deu boas not&iacute;cias do enfermo. Uma semana    &eacute; pouco, disse ele; para p&ocirc;-lo bom, bom, preciso ainda uns dois    meses. Palha confessou que o achara s&atilde;o; em todo caso, mandava quem sabia,    e se fossem necess&aacute;rios seis ou sete meses mais n&atilde;o precipitasse    a alta. (Machado, s. d., p. 166)    <br>   </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O tempo est&aacute;    assinalado em vaiv&eacute;m com progress&atilde;o: oito dias para Palha decidir    visitar Rubi&atilde;o; tempo curto e impreciso para Rubi&atilde;o se despedir    dos amigos; entrega imediata do dinheiro a Rubi&atilde;o; expectativa de retardamento    para Rubi&atilde;o sair do sanat&oacute;rio (a alta repentina seria inconveniente);    Palha prev&ecirc; uma semana de espera para a alta; o m&eacute;dico, avalia    dois meses, ou seis ou talvez ainda sete. Circularidade em espiral, ritmo incerto.    <br>   </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Rubi&atilde;o n&atilde;o    espera; foge. A partir da&iacute;, seus atos traem um estado crescente de altera&ccedil;&atilde;o.    Confirma-se o diagn&oacute;stico m&eacute;dico. Ao chegar a Barbacena, Rubi&atilde;o,    confuso, debaixo de chuva, perambula, sobe e desce as ruas &iacute;ngremes com    o refr&atilde;o &quot;ao vencedor, as batatas&quot;. Vaga sem destino. Adoece.    &quot;[P]oucos dias depois morreu... N&atilde;o morreu s&uacute;dito nem vencido.    Antes de principiar a agonia, que foi curta, p&ocirc;s a coroa na cabe&ccedil;a    -uma coroa que n&atilde;o era, ao menos, um chap&eacute;u velho ou uma bacia,    onde os espectadores apalpassem a ilus&atilde;o&quot; (Machado, s. d., p. 169).    Grifamos, na cita&ccedil;&atilde;o, termos que nos remetem, mais uma vez, a    circularidade e imprecis&atilde;o.     <br>   </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">As altern&acirc;ncias    dos estados de lucidez e confus&atilde;o estabelecem o jogo. O lucro que tiramos    dele &eacute; a certeza de que &quot;pensar racionalmente &eacute; apenas uma    das maneiras de pensar. Caso se restringisse a ela, a cria&ccedil;&atilde;o    art&iacute;stica jamais teria sa&iacute;do da mais elementar mimese&quot; (Reis,    2004, p. 2). A sobreposi&ccedil;&atilde;o de maneiras de pensar e narrar &eacute;    indicada por Wladimir Krysinski. Ele acata a necessidade de se reproduzir, no    texto po&eacute;tico, o gesto-palavra-construtor-de-sentido em plena polival&ecirc;ncia    (Krysinski, 1979). Trata-se de detectar mudan&ccedil;as e imediaticidades de    a&ccedil;&otilde;es e assumir a impossibilidade de simplifica&ccedil;&atilde;o    no discurso. Utiliza-se, assim, uma estrutura polirreferencial que excede a    linguagem. A narrativa exp&otilde;e a extravag&acirc;ncia por meio do l&eacute;xico,    da sintaxe e da pontua&ccedil;&atilde;o imprecisas.     ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   Nesse caso, o discurso tr&aacute;gico &eacute; oportuno. Podemos conhec&ecirc;-lo    bem atrav&eacute;s da trag&eacute;dia euripidiana As Bacantes. A pe&ccedil;a,    uma das obras primas do teatro antigo, encena din&acirc;mica em que lucidez    e loucura se alternam, altercam, confundem, distinguem. Entretanto, nela, o    &quot;bem-pensar&quot; n&atilde;o &eacute; escolha, mas d&aacute;diva que os    deuses concedem e recolhem no arco da vida de um ser humano. Ningu&eacute;m    pensa bem o tempo todo. Ningu&eacute;m &eacute; sensato por toda a vida.     <br>   </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O caso mais &oacute;bvio    de loucura nas trag&eacute;dias &aacute;ticas &eacute; o de H&eacute;racles    -dentro do corpus antigo, o her&oacute;i dos excessos-. Filho de Alcmena e de    Zeus, ele limita com os deuses e bestas e &eacute; protagonista de lendas, de    muitos &aacute;thloi, pr&aacute;xeis e p&aacute;rerga.(<a name="55"></a><a href="#5">5</a>)    Para ele Eur&iacute;pides soube extrair grande for&ccedil;a em pe&ccedil;a que    resultou grave e intensa. Pinceladas de humanidade s&atilde;o produzidas e o    semideus surge como um pai de familia que retorna &agrave; casa entre alegria    e gracejos (Papadopoulou, 2005). O recorte que faremos &eacute; a passagem &agrave;    f&uacute;ria, a invers&atilde;o do jogo, a rota&ccedil;&atilde;o da fortuna,    a expectativa de salva&ccedil;&atilde;o que se reverte em chacina. Posto o her&oacute;i    entre dois extremos &eacute; por imposi&ccedil;&atilde;o da deusa Hera que lhe    vem o del&iacute;rio fatal, em lugar de salvar a fam&iacute;lia, ele a matar&aacute;.    A loucura que o faz assassino se torna &quot;o catalisador que o constrange    a escolher a humaniza&ccedil;&atilde;o em lugar da diviniza&ccedil;&atilde;o&quot;    (Papadopoulou, 2005, p. 80). Observemos: o H&eacute;racles de Eur&iacute;pides    chega do mundo subterr&acirc;neo depois de longa jornada. Perdido no tempo e    no espa&ccedil;o, mergulhado em d&uacute;vidas, ele coloca quest&otilde;es:    est&aacute; perturbado com a situa&ccedil;&atilde;o de Tebas em m&atilde;os    de um novo rei. Sa&uacute;da sua casa e manifesta satisfa&ccedil;&atilde;o por    ver novamente a luz. O comportamento muda aos poucos. A cena se passa entre    H&eacute;racles, seu pai Anfitri&atilde;o e sua esposa M&eacute;gara.    <br>   </font></p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/uh/n282/f0110282.jpg" width="500" height="430"></p>     <p align="center"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">H&eacute;racles    <br>   &Ocirc; morada, portais e calor meus, viva!    <br>   Como te avisto feliz ao chegar &agrave; luz.    <br>   &Ecirc;a! Que isto? As crias &agrave; frente da casa,    <br>   enfeites de mortos, descoroadas cabe&ccedil;as,    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   minha parceira com um monte de homens    <br>   e um pai que chora - alguma desgra&ccedil;a?    <br>   Tolero? Indago destes aqui perto de mim?    <br>   Mulher, que de urgente e novo chegou na casa?    <br>   M&eacute;gara    <br>   &Oacute; mais querido dos homens...    <br>   Anfitri&atilde;o    <br>   &Oacute; fulgor que vem ao pai...    <br>   M&eacute;gara    <br>   Chegas bem, vens em boa hora pr'os amigos!    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   H&eacute;racles    <br>   Do que falas? A que confus&atilde;o chegamos, pai?</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Observe-se: trata-se    da primeira fala de H&eacute;racles. ? her?i chega tardiamente (v. 523) e sua    entrada &eacute; marcada pelo suspense. Com breve sauda&ccedil;&atilde;o (vv.    523-524), seu discurso se abre com uma sucess&atilde;o de perguntas. Trata-se    de um curto prel&uacute;dio breve -de si para si- de algu&eacute;m que vem dos    &iacute;nferos e constata que a sua fam&iacute;lia est&aacute; &quot;vestida    para morrer&quot; e precisa ser salva do exterm&iacute;nio. Mas ele cumprir&aacute;    o papel teatral de uma personagem que ficar&aacute; demente e, em lugar de proteger,    matar&aacute;. Tudo ser&aacute; regido por espanto, choque e incerteza. Em grego    temos a estrutura&ccedil;&atilde;o a partir de part&iacute;culas exclamativas    e interrogativas. H&eacute;racles se expressa atrav&eacute;s de f&oacute;rmulas    recorrentes em textos euripidianos (Eur&iacute;pides, 1998). A interjei&ccedil;&atilde;o    ?? marca desagrado e surpresa. O vocativo (?????) registra um suave pedido de    socorro. No trecho citado, nos nove versos de H&eacute;racles, h&aacute; cinco    ocorr&ecirc;ncias do pronome interrogativo ??. A inquieta&ccedil;&atilde;o pessoal,    ao fim, amplia-se em uma primeira pessoa do plural (???&micro;??). Coincidem    com os trechos brasileiros a atmosfera de brilho (Rosa) e instabilidade (Machado).    Na tentativa de apaziguar a ansiedade e oferecer subs&iacute;dios para o entendimento    do que se passou, M&eacute;gara e o pai adotivo, Anfitri&atilde;o, respondem.    H&eacute;racles, por&eacute;m, se excita e anuncia o seguinte:     <br>   </font></p>     <p align="center"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><img src="/img/revistas/uh/n282/f0210282.jpg" width="475" height="293">        <br>   H&eacute;racles    <br>   N&atilde;o! Tirai fora estas grinaldas infernais e    <br>   mirai o alto fulgor amigo triunfal, em vez    <br>   das trevas l&aacute; de baixo, c'os olhos escancarados!    <br>   E eu -obra p'ra meu bra&ccedil;o &eacute; mesmo agora-     ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   vou e, primeiro, derrubo a casa dos novos    <br>   chefes e o cabe&ccedil;a, o &iacute;mpio, eu que talho;    <br>   lan&ccedil;o o retalho pr'os c&atilde;es! Os de Cadmo    <br>   -por mim benquistos- a quantos frouxos    <br>   encontrar, com clava invicta abato! A eles,    <br>   com dardos alados, espica&ccedil;o, encho do    <br>   sumo de mortos todo o Ismeno e at&eacute; a    <br>   cristalina fonte Dirce vai se ensanguinhar.    <br>   A quem urge mais acudir sen&atilde;o a esposa e    <br>   os meninos e o velho? Vivam as pelejas! Em    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   v&atilde;o lutei por tantos; estes, sim, valem mais. Por    <br>   eles carece -j&aacute; que s&atilde;o pelo pai- que eu,    <br>   acudindo, morra! Qual qu&ecirc;! Que diremos?     <br>   &quot;Belo &eacute; com a hidra e o le&atilde;o, os que Euristeu    <br>   enviou, entrar na luta!?&quot; e eu, com a morte por    <br>   minhas crias n&atilde;o hei de me acabar? Ara! N&atilde;o!    <br>   Assim n&atilde;o me chamo H&eacute;racles, o invicto.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">H&eacute;racles,    como se v&ecirc;, exalta-se, projetando suas a&ccedil;&otilde;es triunfais com    verbos em profus&atilde;o. O futuro marca um devaneio; o partic&iacute;pio confirma    o agente. Tentamos forjar a imediaticidade nas a&ccedil;&otilde;es traduzindo    o futuro grego -condensado e breve- e, algumas vezes, o partic&iacute;pio, pelo    presente hist&oacute;rico. O artif&iacute;cio foi imperioso para recuperar o    instant&acirc;neo do pensamento do her&oacute;i. Para exprimir a excita&ccedil;&atilde;o    de H&eacute;racles, utilizamo-nos igualmente da aglutina&ccedil;&atilde;o -&quot;com    os&quot; por &quot;c'os&quot;; &quot;para os&quot; por &quot;pr'os&quot;-. Inserimos    o pronome pessoal de primeira pessoa &agrave; frente dos partic&iacute;pios    -eu que talho-, evitamos per&iacute;frases, mes&oacute;clises e formas obl&iacute;quas    que materializam a&ccedil;&otilde;es estendidas no portugu&ecirc;s. Preservamos    as lacunas -lugar dos gestos- e pontuamos o texto em frases curtas. Para manter    o tom &eacute;pico, aludido por Bond (Eur&iacute;pides, 1988), utilizamos o    arca&iacute;smo &quot;espica&ccedil;ar&quot; e o termo raro &quot;ensanguinhar&quot;.    O ritmo &eacute; acelerado.     <br>   </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Depois desses arroubos,    Anfitri&atilde;o acalma o filho, leva-o para casa. Cumprir-se-iam os ritos purificat&oacute;rios.    O coro dan&ccedil;a e canta. A disputa acirrada entre Anfitri&atilde;o e Lico,    o novo tirano, abre o terceiro epis&oacute;dio. O coro canta novamente e prev&ecirc;    vingan&ccedil;a. Os gritos de Lico e seu mortal sil&ecirc;ncio exibem a vit&oacute;ria    do her&oacute;i. Se havia ins&acirc;nia, ela se foi: fez-se justi&ccedil;a.    O coro exulta, mas, no &aacute;pice, &Iacute;ris mensageira e Lyssa louca surgem    ex-machina. Novo abalo. Estamos na esfera do medo. O coro lamenta. O mensageiro    vai fabricar o enlouquecido que matar&aacute; os filhos e a consorte. Somos    espectadores de palavras. Ele conta: est&atilde;o preparadas as v&iacute;timas    e os cestos de oferendas; Anfitri&atilde;o, a mulher e os filhos se colocam    em torno do altar; fez-se o sil&ecirc;ncio sagrado. Qualquer quebra do sil&ecirc;ncio    sagrado &eacute; mau agouro,(<a name="66"></a><a href="#6">6</a>) mas a muta&ccedil;&atilde;o    come&ccedil;a por manifesta&ccedil;&otilde;es som&aacute;ticas at&eacute; um    riso tresloucado ferir o sil&ecirc;ncio. Um simples ?? faz a transi&ccedil;&atilde;o.(<a name="77"></a><a href="#7">7</a>)    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   </font></p>     <p align="center"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><img src="f0310282.jpg" width="481" height="211">    <br>   </font></p>     <p align="center"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Mensageiro        <br>   J&aacute; ia levando, co'a m&atilde;o direita, o ti&ccedil;&atilde;o    <br>   para afogar na caldeirinha, a&iacute;, o filhote     <br>   de Alcmena estacou calado. Ent&atilde;o, no pai     <br>   sustado os meninos puseram vista: e ele se    <br>   esquisitou, mas no colorido das vistas era um    <br>   morto, as fibrinhas dos olhos? Vermelho-sangue,    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   estufadas. Da barba fechada uma espuma corria.    <br>   </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A circularidade    est&aacute; presente a partir dos olhos. Os meninos percebem o olhar do pai,    est&aacute;tico. A crian&ccedil;a menor divisa morte e sangue no olhar do pai.    A focaliza&ccedil;&atilde;o deles foi apontada na descri&ccedil;&atilde;o de    Lyssa, &eacute; repetida aqui e ser&aacute; retomada (Papadopoulou, 2005). Tudo    &eacute; vis&atilde;o. Tamb&eacute;m para o m&eacute;dico e escritor Guimar&atilde;es    Rosa, o olhar &eacute; &iacute;ndice de loucura. A partir disso, tal como postulou    Krysinski (1979, p. 3), se vai do sistema psicossom&aacute;tico at&eacute; o    verbal. Os passos s&atilde;o a suspens&atilde;o -??? ??????????? ??????-, o    menino v&ecirc; o demorado agir do pai;(<a name="88"></a><a href="#8">8</a>)    a somatiza&ccedil;&atilde;o, olhos ensanguinhados, e a boca, &oacute;rg&atilde;o    essencial para a fala, que espuma. H&eacute;racles fala quando &eacute; proibido    falar; ri quando a alegria lhe &eacute; negada (Papadopoulou, 2005).    <br>   </font></p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/uh/n282/f0410282.jpg" width="469" height="173"></p>     <p align="center"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">e    disse junto com desatinado riso: &quot;Pai,    <br>   que consagro antes de matar Euristeu com    <br>   fogo purificador? Mais duas tarefas tenho:    <br>   obra pra uma s&oacute; m&atilde;o, a minha! Isso fa&ccedil;o bem!    <br>   No que arrasto pra c&aacute; a cabe&ccedil;a de Euristeu,    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   a&iacute;, sobre esses mortos, lavo as m&atilde;os.    <br>   Vertei bicas! Das m&atilde;os, largai os cestos!    <br>   </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O riso hist&eacute;rico    e inoportuno misturado &agrave; fala organizada e ao discurso direto marcam    a transgress&atilde;o. O tom h&aacute; de surpreender.(<a name="99"></a><a href="#9">9</a>)    Embora se pressinta um del&iacute;rio iminente, H&eacute;racles tem consci&ecirc;ncia    de seu entorno, v&ecirc; os objetos lit&uacute;rgicos e parece estar no controle    de si. A enumera&ccedil;&atilde;o dos duplos trabalhos (?????? ???????) denota    exatid&atilde;o, todavia, tudo &eacute; deris&atilde;o. Continuemos:    <br>   </font></p>     <p align="center"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><img src="/img/revistas/uh/n282/f0510282.jpg" width="463" height="265">    <br>   </font></p>     <p align="center"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Quem    me d&aacute; o arco? E a arma de m&atilde;o, quem?    <br>   Vou pra Micenas. Carece pegar ferrolhos e    <br>   forcados j&aacute; que os alicerces cicl&oacute;picos s&atilde;o    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   ajustados na medida fen&iacute;cia e com chibancas,    <br>   foice de a&ccedil;o, outra vez, esmiga&ccedil;ar! A&iacute;,    <br>   subiu no carro dele, um que ele n&atilde;o tinha,     <br>   falou e entrou na boleia do coche, feriu    <br>   com o a&ccedil;oite, com se um na m&atilde;o tivesse.    <br>   </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A agita&ccedil;&atilde;o    e a ca&ccedil;a desmedida se iniciam. O desvairado busca armas e ferramentas    -inapropriadas para um her&oacute;i-, sofre de fantasias megaloman&iacute;acas    (Eurip&iacute;des, 1990; Jong, 1991). Pontuamos com interrogativas o estado    de confus&atilde;o. No del&iacute;rio, est&aacute; em Micenas. Forja objetos    com o ar tal como em Machado e concretiza a descoberta e a conex&atilde;o de    dois sistemas distintos: o real e o imaginado. Desse modo o discurso de H&eacute;racles    &eacute;, na fantasia, l&oacute;gico. Sua dem&ecirc;ncia n&atilde;o altera seu    racioc&iacute;nio.(<a name="1010"></a><a href="#10">10</a>) Ap&oacute;s o sacr&iacute;lego    ato de falar e rir ele se transferiu para Micenas e, l&aacute;, far&aacute;    banalidades. Agita-se mais e grita improp&eacute;rios para Euristeu: recupera    o comportamento do her&oacute;i m&iacute;tico e se p&otilde;e a combater (Papadopoulou,    2005). Profus&atilde;o de verbos de a&ccedil;&atilde;o e movimento. O pret&eacute;rito    imperfeito registra a dura&ccedil;&atilde;o e o desgaste da alucina&ccedil;&atilde;o.    Os partic&iacute;pios marcam os atos repentinos a&ccedil;&otilde;es-resultados-fatos    -traduzidos pelo presente hist&oacute;rico-. Em 959, o uso do imperfeito do    mensageiro que fala, em tom de aparte, cria uma incerteza atroz.    <br>   </font></p>     <p align="center"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><img src="/img/revistas/uh/n282/f0610282.jpg" width="477" height="329">    <br>   </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">E    ele ia-e-vinha pela casa, acima e abaixo,    <br>   No que foi pro meio da sala, em Niso    <br>   alegou chegar. Entra, moradas adentro,    <br>   deita em nada, a&iacute; acomoda, prepara um    <br>   festim. No curto tempo, atravessa -dizia    <br>   subir os prados ermos do bosque Istmo.    <br>   E ali p&otilde;e o corpo nu, sem roupas,    <br>   disputava com ningu&eacute;m e alardeava, ele     <br>   pra ele, vencedor de ningu&eacute;m, ele mesmo    <br>   escutava o sobredito. E pra Euristeu berra pragas,    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   estava em Micenas... pelo dito.     <br>   </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A loucura &eacute;    a fus&atilde;o entre os espa&ccedil;os reais e os imaginados. A mov&ecirc;ncia    visualiza a circula&ccedil;&atilde;o centr&iacute;peta da fus&atilde;o. H&aacute;    um ac&uacute;mulo de adv&eacute;rbios, preposi&ccedil;&otilde;es e part&iacute;culas    que amarram a&ccedil;&otilde;es inconclusas. A consoante forte &quot;?/k&quot;    (v. 954) real&ccedil;a o som abrupto e o ritmo intempestivo. Os eventos e gestos    narrados s&oacute; ocorrem para o alucinado -entrar, deitar, comer, avan&ccedil;ar,    disputar, vencer-. Ele entra no &quot;oco sem beiras&quot;,(<a name="1111"></a><a href="#n11">11</a>)    &quot;deita no nada&quot;, &eacute;, &quot;pelo dito&quot;, &quot;vencedor de    ningu&eacute;m&quot;. Como elemento pr&aacute;tico na pe&ccedil;a, a palavra    leva a audi&ecirc;ncia para dentro da aliena&ccedil;&atilde;o. Assim cumpriu-se    o plano de Lyssa:(<a name="1212"></a><a href="#12">12</a>) no modelo antigo,    a partir do jogo filos&oacute;fico -frequente na ironia tr&aacute;gica e recorrente    em Eur&iacute;pides-(<a name="1313"></a><a href="#13">13</a>)entre &quot;verdade    e apar&ecirc;ncia&quot;.(<a name="1414"></a><a href="#14">14</a>) O par &eacute;    &uacute;til para a elabora&ccedil;&atilde;o da loucura. Nesse enfoque, a mania    passa a ser uma conflu&ecirc;ncia de estudos: psicol&oacute;gicos, cl&iacute;nica    m&eacute;dica, linguagem e filosofia.(<a name="1515"></a><a href="#15">15</a>)    De qualquer modo, a dem&ecirc;ncia constituir-se-&aacute; da fragmenta&ccedil;&atilde;o    na linguagem pela t&eacute;cnica ret&oacute;rica da dissocia&ccedil;&atilde;o    de no&ccedil;&otilde;es. &quot;O racioc&iacute;nio por dissocia&ccedil;&atilde;o    caracteriza-se, desde o in&iacute;cio, pela oposi&ccedil;&atilde;o entre a apar&ecirc;ncia    e a realidade. Esta pode ser aplicada a qualquer no&ccedil;&atilde;o, desde    que fa&ccedil;a uso dos adjectivos 'aparente', 'ilus&oacute;rio', por um lado,    &quot;real&quot;, &quot;verdadeiro&quot; pelo outro&quot; (Perelman, 1993).    H&aacute; express&otilde;es an&aacute;logas nos trechos citados e, de fato,    por meio desse elemento a audi&ecirc;ncia pode identificar o que se passa com    o her&oacute;i, ela visualiza a fragmenta&ccedil;&atilde;o de seu ????, de sua    mente. Coerente em seu del&iacute;rio, H&eacute;racles fala e age; sua fala    marca a cena em outra realidade. Esse outro lugar do texto (950-953), na sua    razoabilidade, permite a rea&ccedil;&atilde;o dividida dos servos:     <br>   </font><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">    <br>   </font></p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/uh/n282/f0710282.jpg" width="473" height="199"></p>     <p align="center"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A&iacute;,    tinha riso e medo juntos nos dois ac&oacute;litos.    <br>   E um, encarando o outro, disse isto:    <br>   O senhor brinca conosco ou enlouqueceu?    <br>   </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A t&eacute;cnica    de aliar o falar razo&aacute;vel a um fazer absurdo provoca a fragmenta&ccedil;&atilde;o    da realidade que se situa entre realidade fenom&ecirc;nica e a num&ecirc;nica    (Perelman, 1993) este &eacute; o caminho para os &quot;n&iacute;veis de fragmenta&ccedil;&atilde;o    e registros de distor&ccedil;&atilde;o&quot; (Krysinski, 1979). Afinal, apar&ecirc;ncia    e realidade podem parecer a mesma coisa, sendo, contudo, incompat&iacute;veis.    Este &eacute; o leitmotiv da cena de loucura de H&eacute;racles. Assim, se a    apar&ecirc;ncia tem um estatuto equ&iacute;voco, o homem deve buscar a luz e    retirar o manto que encobre sua cabe&ccedil;a.(<a name="1616"></a><a href="#16">16</a>)    A palavra, nessa perspectiva, &eacute; rota de fragmenta&ccedil;&atilde;o. Resta-lhe    apenas a perda do reconhecimento.    <br>   </font></p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/uh/n282/f0810282.jpg" width="500" height="374"></p>     <p align="center"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ent&atilde;o    o pai     <br>   segura-o pelo bra&ccedil;o robusto e roga assim:    <br>   &quot;&Ocirc; filho, que te deu? Que estranhos modos    <br>   esses? Acaso te baqueou a sangria dos mortos,    <br>   os que agora mataste? E ele, que pensou ser     <br>   Euristeu o pai medroso e suplicante, a m&atilde;o ret&eacute;m    <br>   e empurra, a&iacute;, com o carc&aacute;s abastecido e o    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   arco, os filhos dele -que de Euristeu acha ser-     <br>   vai pra matar. E eles -um e outro- tremendo     <br>   de medo se jogam um ao vestido da triste m&atilde;e,     <br>   o outro no escuro, atr&aacute;s de um pilar, e o outro,    <br>   avezinha assustada debaixo do altar.    <br>   Urge ent&atilde;o a m&atilde;e: &oacute; pai, que fazes, matas    <br>   as crias? Urge ent&atilde;o o velho e mais o povo da casa.    <br>   </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O narrador provoca    uma contamina&ccedil;&atilde;o emocional, em amplificatio: compaix&atilde;o    de Anfitri&atilde;o, viol&ecirc;ncia de H&eacute;racles, medo das crian&ccedil;as,    histeria da m&atilde;e, desprezo pelas s&uacute;plicas do pai, histeria do pai    e de toda a casa. O louco n&atilde;o reconhece os seus. Numerosos marcadores    de movimento descrevem a fuga das crian&ccedil;as, dispersam o olhar, desestabilizam    os corpos. O discurso do mensageiro tem duas dire&ccedil;&otilde;es: o crescente    desvario de H&eacute;racles e o p&acirc;nico geral, a turbulenta intera&ccedil;&atilde;o    familiar se transforma em cat&aacute;strofe, ruptura entre o real e a linguagem.    A dissocia&ccedil;&atilde;o no discurso se muda em sparagm&oacute;s, o dilaceramento    ritual de Dioniso, uma ciranda de loucos:    <br>   </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/uh/n282/f0910282.jpg" width="373" height="487"></p>     <p align="center"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">E    ele encurrala o menino, na roda do pilar     <br>   com um giro terr&iacute;vel do p&eacute;, estaca de frente e    <br>   contra o f&iacute;gado atira. Tomba pra tr&aacute;s, as pedras    <br>   pilares empapou: uma vida expira.     <br>   E ele alaridou e gloriou assim: &quot;Este    <br>   &eacute; um pintinho de Euristeu que ca&iacute;do     <br>   morreu; quitou meu &oacute;dio pelo pai.&quot;    <br>   A&iacute;, retesa o arco para um que, mofino, ao sop&eacute;    <br>   do altar, rente, escondido, pensava estar,    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   mas o infeliz, de joelhos ca&iacute;do corre pr'o     <br>   pai e ao pesco&ccedil;o se joga; m&atilde;o na barba:    <br>   &quot;&Ocirc; querido, grunhiu, me mate n&atilde;o, pai!    <br>   Sou teu, teu menino, n&atilde;o matas o de Euristeu!&quot;    <br>   E ele, as vistas de G&oacute;rgona, furioso, rodopia     <br>   -pois o menino se p&ocirc;s perto do infame arco-     <br>   e finge ferro quente bater e malhou sobre a cabe&ccedil;a;    <br>   a tora desceu direto na cabe&ccedil;a ruiva do menino,    <br>   moeu seus ossos. Mal puniu o segundo, avan&ccedil;a    <br>   pr'a terceira v&iacute;tima tal qual os dois de antes imolou.    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   Mas corre -casa adentro- a triste m&atilde;e que    <br>   no colo o leva. Tranca os port&otilde;es. Mas ele    <br>   estava diante deles, os cicl&oacute;picos muros, e    <br>   afunda, alavanca a porta e, no que derriba marcos,    <br>   esposa e menino, com um s&oacute; dardo, abate. A&iacute;,    <br>   ent&atilde;o, encavala-se. Vai pr'a sangrar o velho!    <br>   Por&eacute;m, surgida vem, de olhar, brilhante,    <br>   Palas que vibra lan&ccedil;a...    <br>   </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Abund&acirc;ncia    de imagens circulares. A roda do pilar, o giro do p&eacute;, olhos que rodopiam    como os da G&oacute;rgona. Oportuna tamb&eacute;m &eacute; a inser&ccedil;&atilde;o    da met&aacute;fora do ferreiro. A cena se enche do vermelho vibrante do ferro    incandescente que atravessa a cabe&ccedil;a da crian&ccedil;a. A ca&ccedil;a    continua. Ap&oacute;s o mortic&iacute;nio da mulher e dos tr&ecirc;s filhos,    Atena ser&aacute; agente purificador. A deusa surge, atira uma pedra no peito    de H&eacute;racles e impede-o de matar o pr&oacute;prio pai (Burkert, 1983).    Ele cai em sono profundo e n&oacute;s descansamos. Se tomarmos a opini&atilde;o    de S&oacute;crates, no Fedro, como par&acirc;metro, a &micro;???? seria b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o    para o filho de Alcmena; afinal, pela dem&ecirc;ncia ele acha o caminho de Atenas.    Concluimos enfim que viver &eacute; mesmo &quot;um trem de louco&quot; e a literatura    explica bem esse jogo!</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b><font size="3">REFERENCIAS    BIBLIOGR&Aacute;FICAS</font></b>    <br>   </font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">BIEHL, JO&Atilde;O    (2008): &quot;Antropologia do devir: psicof&aacute;rmacos-abandono social-desejo&quot;,    Revista de Antropologia, vol. 51, n.&ordm; 2, S&atilde;o Paulo, pp. 413-449.    <br>   </font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">BURKERT, WALTER    (1983): Homo Necans: The Anthropology of Ancient Geek Sacrificial Ritual and    Myth, trad. para o ingl&ecirc;s de Peter Bing. Berkeley, University of California    Press, Los Angeles/London.    <br>   </font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">BURKERT, WALTER    (1993): Religi&atilde;o grega na &eacute;poca cl&aacute;ssica e arcaica, trad.    de M. J. Sim&otilde;es Loureiro, Funda&ccedil;&atilde;o Calouste Gulbenkian,    Lisboa.    <br>   </font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">CORREIA, MANUEL    (2006): Egas Moniz e o Pr&eacute;mio Nobel, Imprensa da Universidade de Coimbra,    2006.    <br>   </font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">DAVIS, ELIZABETH    ANNE (2012): Bad Souls: Madness and Responsibility in Modern Greece, Duke University    Press, Durham/London.    <br>   </font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">DODDS, E. R. (1988):    Os gregos e o irracional, trad. de L. S. de Carvalho, Gradiva, Lisboa.    <br>   </font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">EUR&Iacute;PIDES    (1988): Eur&iacute;pides Heracles, introduction and commentary by Godfrey W.    Bound, Clarendon Press, Oxford.    <br>   </font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">FOUCAULT, MICHEL    (1978): Hist&oacute;ria da Loucura, trad. de Jos&eacute; Teixeira Coelho Netto,    Editora Perspectiva S. A., S&atilde;o Paulo.    <br>   </font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">GUIMAR&Atilde;ES    ROSA, JO&Atilde;O (1988): &quot;Sor&ocirc;co, sua m&atilde;e, sua filha&quot;,    in Primeiras hist&oacute;rias, Nova Fronteira, Rio de Janeiro, pp. 18-21.    <br>   </font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">JONG, IRENE J.    F. DE (1991): Narrative in Drama: the Art of the Euripidean Messenger-Speech,    E. J. Brill, Leiden.    <br>   </font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">KRYSINSKI, WLADIMIR    (1979): &quot;The Mimesis of Madness and the Semiotics of the Text&quot;, trad.    de Raili Mikkanen, in SubStance, ano 22, vol. 8, n.o 1, Charlottesville, Virginia,    pp. 1-15.    <br>   </font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">LUCAS, F&Aacute;BIO    (2009): &quot;A loucura padecente de Minas Gerais nas obras de Machado de Assis    e Guimar&atilde;es Rosa&quot;, in N&uacute;cleo e a Periferia de Machado de    Assis, Manole, Barueri/S&atilde;o Paulo, pp. 82-98.    <br>   </font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">MACHADO, JOAQUIM    PEDRO (1995): Dicion&aacute;rio etimol&oacute;gico da l&iacute;ngua portuguesa,    7.&ordf; ed., Livros Horizonte, Lisboa.    <br>   </font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">MACHADO DE ASSIS,    JOAQUIM MARIA (s. d.): Quincas Borba, Ediouro/Cole&ccedil;&atilde;o Prest&iacute;gio,    S&atilde;o Paulo.    <br>   </font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">OSTETTO, LUCIANA    ESMERALDA (2009): &quot;Na dan&ccedil;a e na educa&ccedil;&atilde;o: o c&iacute;rculo    como princ&iacute;pio&quot;, Educa&ccedil;&atilde;o e Pesquisa, vol. 35, n.o    1, S&atilde;o Paulo, pp. 177-193.    <br>   </font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">PAPADOPOULOU, THALIA    (2005): Heracles and Euripidean Tragedy, Cambridge University Press.    <br>   </font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">PARMENIDES (1984):    Parmenides of Elea. Fragments, ed., introd., trad. e coment&aacute;rios de David    Gallop, University of Toronto Press, Toronto.    <br>   </font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">PEREIRA, LUCIMAR    (2009): Hist&oacute;rico do Centro Hospitalar Psiqui&aacute;trico de Barbacena,    &lt;<a href="http://www.museudapsiquiatria.org.br/predios_famosos/exibir/?id=1" target="_blank">http://www.museudapsiquiatria.org.br/predios_famosos/exibir/?id=1</a>&gt;    [15-10-2011].    <br>   </font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">PERELMAN, CHA&Iuml;M    (1993): O Imp&eacute;rio Ret&oacute;rico - ret&oacute;rica e argumenta&ccedil;&atilde;o,    Edi&ccedil;&otilde;es Asa, Porto.    <br>   </font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">PLAT&Atilde;O (1983):    A Rep&uacute;blica, trad. e notas de M. H. da Rocha Pereira, Funda&ccedil;&atilde;o    Calouste Gulbenkian, Lisboa.    <br>   </font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">PLAT&Atilde;O (1997):    Fedro, trad. de Jos&eacute; Ribeiro Ferreira, Edi&ccedil;&otilde;es 70, Lisboa.    <br>   </font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">REIS, ELO&Eacute;SIO    PAULO DOS (2004): Literatura e loucura: o escritor no hosp&iacute;cio em tr&ecirc;s    romances dos anos 70, tese (Doutorado em Letras), orientadora: Maria Eug&ecirc;nia    da Gama Boaventura Alves Dias, UNICAMP, Campinas.     </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">RECIBIDO: 14/1/2016    <br>   ACEPTADO: 28/4/2016</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Tereza Virg&iacute;nia    Ribeiro Barbosa. Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, Brasil.    Correo electr&oacute;nico:<a href="mailto:tereza.virginia.ribeiro.barbosa@gmail.com">    tereza.virginia.ribeiro.barbosa@gmail.com</a></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3"><b><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">NOTAS    ACLARATORIAS</font></b></font><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">    <br>   </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><a name="1"></a><a href="#11">1</a>.    antigo centro de sa&uacute;de guarda, entre documentos e instala&ccedil;&otilde;es,    todo um invent&aacute;rio de viol&ecirc;ncia. Vemo-nos diante da mis&eacute;ria    humana, espet&aacute;culo tr&aacute;gico de todos os tempos. Nos arquivos encontramos,    por exemplo, o prontu&aacute;rio de Jo&atilde;o Ad&atilde;o, o &uacute;ltimo    paciente a sofrer a controvertida cirurgia de lobotomia/leucotomia, que consistia    em cortar a liga&ccedil;&atilde;o nervosa entre o c&oacute;rtex pr&eacute;-frontal    e o restante do c&eacute;rebro, m&eacute;todo que &quot;acalmava&quot; o paciente.    A t&eacute;cnica foi criada pelo m&eacute;dico Ant&ocirc;nio Egas Moniz, que,    por esse procedimento, recebeu o Pr&ecirc;mio Nobel     ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   de 1949. Muniz, embora preservasse a mem&oacute;ria do paciente, com a t&eacute;cnica,    alcan&ccedil;ou meios para fazer de seus internos furiosos ou possessos &quot;seres    vegetativos&quot;.     <br>   <a name="2"></a><a href="#22">2</a>. A palavra &quot;telhado&quot;, utilizada    no diminutivo, significa, no uso informal, &quot;grande mania&quot;, &quot;desvario&quot;.    Al&eacute;m disso, o termo remonta sonoramente tamb&eacute;m a &quot;tombadilho&quot;,    isto &eacute;, parte mais elevada dso navios que vai do mastro da mezena at&eacute;    a popa.    <br>   <a name="3"></a><a href="#33">3</a>. Do grego, ???&micro;??, movimento regrado    e medido; tempo, cad&ecirc;ncia.    <br>   <a name="4"></a><a href="#44">4</a>. Par&aacute;grafos. Do gr. Par&aacute;grahos,    sinal (geralmente -) com que se marcava as diversas partes do coro ou da par&aacute;base    que correspondem na trag&eacute;dia e na antiga com&eacute;dia, pelo lat. paragraphu-,    &quot;par&aacute;grafo, marca para distinguir as diversas partes duma exposi&ccedil;&atilde;o&quot;    (Machado, 1995, p. 7).    <br>   <a name="5"></a><a href="#55">5</a>. Os trabalhos impostos por Euristeu s&atilde;o    chamados ?????; ??????? s&atilde;o atos gloriosos aut&ocirc;nomos e, por fim,    ??????? s&atilde;o as pequenas aventuras realizadas durante os doze anos em    que se cumpriam os ?????.    <br>   <a name="6"></a><a href="#66">6</a>. Cf. &Eacute;squilo, Co&eacute;foras, vv.    84-99; Eum&ecirc;nides, vv. 445-450. Orestes foi recebido em Atenas, mas mediante    o sil&ecirc;ncio (cf. Eur&iacute;pides, Orestes, vv. 879-959).    <br>   <a name="7"></a><a href="#77">7</a>. O uso do ?? &eacute; regular na fala de    mensageiros. Ele cumpre a transi&ccedil;&atilde;o dos discursos diretos para    os narrativos (Jong, 1991, pp. 168-169), a pesquisadora observa os versos 953,    967, 977, 990.    <br>   <a name="8"></a><a href="#88">8</a>. Quem melhor traduz este estado &eacute;    Guimar&atilde;es Rosa, no conto referido e da seguinte forma: &quot;um repouso    estatelado&quot; (Guimar&atilde;es Rosa, 1998, p. 20); outra express&atilde;o    feliz: &quot;Em tanto que se esquisitou, parecia que ia perder o de si, parar    de ser&quot; (p. 21). O grifo &eacute; nosso.    <br>   <a name="9"></a><a href="#99">9</a>. Para Krysinski a &quot;incurs&atilde;o    da loucura no sistema significativo da linguagem&quot; &eacute; esp&eacute;cie    de metat&oacute;pico que invade, impregna e ultrapassa o f&iacute;sico. &Eacute;    a interfer&ecirc;ncia de dois sistemas: o psico-emocional e o lingu&iacute;stico    (Krysinski, 1979, p. 3).    <br>   <a name="10"></a><a href="#1010">10</a>. Em Machado temos: &quot;uma coroa que    n&atilde;o era, ao menos, um chap&eacute;u velho ou uma bacia, onde os espectadores    apalpassem a ilus&atilde;o&quot; (Krysinski, 1979, p. 3).    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   <a name="n11"></a><a href="#1111">11</a>. Guimar&atilde;es Rosa (1998, p. 21)    assim descreve a loucura de Sor&ocirc;co.    <br>   <a name="12"></a><a href="#1212">12</a>. Cf. vv. 943, 947-950, 955, 963, 967-971,    982, 998 do H&eacute;racles de Eur&iacute;pides.    <br>   <a name="13"></a><a href="#1313">13</a>. Orestes, v. 255; Hip&oacute;lito, vv.    432; 1414; Bacantes, vv. 309; 312; 629-630.    <br>   <a name="14"></a><a href="#1414">14</a>. Cf. Parm&ecirc;nides (Diels, 7 e 8)    e Plat&atilde;o tamb&eacute;m. Na Rep&uacute;blica, livro VII, o fil&oacute;sofo    imagina uma linha que parte do mundo vis&iacute;vel (doxasta) e deve chegar    at&eacute; o mundo intelig&iacute;vel (noeta). O mundo vis&iacute;vel estaria    pr&oacute;ximo da ????, o mundo intelig&iacute;vel da verdade. Rocha Pereira    para a Rep&uacute;blica, afirma: &quot;N&atilde;o &eacute; menos importante    a antinomia entre opini&atilde;o e saber, entre doxa e sophia, que t&iacute;nhamos    visto ao terminar do Livro IV e que vai tomar forma n&iacute;tida na alegoria    da Caverna. (VII. 514 a-518 b)&quot; (Plat&atilde;o, 1983, p. XXX).    <br>   <a name="15"></a><a href="#1515">15</a>. N&atilde;o afirmamos que os antigos    tratavam a loucura como uma quest&atilde;o de linguagem. &Eacute; famoso o estudo    sobre epilepsia no De morbo sacro atribu&iacute;do por uns &agrave; escola de    C&oacute;s, por outros &agrave; de Cnidos. Tanto uma quanto a outra teriam sido    fundadas entre fins do s&eacute;c. V e in&iacute;cio do IV. Plat&atilde;o classifica    a loucura como prof&eacute;tica, ritual, po&eacute;tica e er&oacute;tica. Dodds    (1998) faz um estudo detalhado do assunto. Eur&iacute;pides resolve a situa&ccedil;&atilde;o    na observa&ccedil;&atilde;o dos enganos que a linguagem pode gerar.    <br>   <a name="16"></a><a href="#1616">16</a>. H&aacute; forte simbolismo na cena    de encontro entre H&eacute;racles e Teseu (v. 1159, vv. 1198-1217, vv. 1226-1228).    Bond afirma: &quot;Heracles gives two separate reasons for veiling himself;    [...] (a) he is ashamed; (b) he fears he may infect Theseus&quot; (Eur&iacute;pides,    1988, p. 361). Descobrir a cabe&ccedil;a e ouvir Teseu abre para H&eacute;racles    nova perspectiva, ele abandona a vergonha pelo ato perpetado e os escr&uacute;pulos    de contamina&ccedil;&atilde;o. Dessa forma ele assume sua condi&ccedil;&atilde;o    mortal.</font></p>     <p></p>      ]]></body><back>
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